segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Kency Porta e Heated Rivalry

Quando Piauí e Canadá se encontram (na minha cabeça):

Publicada originalmente na newsletter Clube de Profecias


Em dezembro eu me permiti assistir uma temporada inteira de uma série, coisa que eu não fazia já tem alguns anos. Não, não era Stranger Things, nem a série do palhaço assassino. Quem está mais perto de mim pelas redes ou pessoalmente deve ter adivinhado: estou falando da já minha queridíssima Heated Rivalry/Rivalidade Ardente (eu cometi uma postagem no blog destacando 11 motivos para você assistir), em português.

Fui assistir sem expectativa em termos de qualidade/investimento, porque se tratava em obra baseada em um livro de romance hot MM ou yaoi/bl/danmei, coisa de mulher e gays, que ninguém do mainstream quer saber. Ou que não queria.

O diretor/roteirista Jacob Tierney fez milagres, junto com sua equipe e especialmente os atores principais Connor Storrie e Hudson Williams. Os dois jovens atores, com pequenos papéis no currículo, mas investidos em uma qualidade criativa e de entrega que faz você, sabe, sentir que tá respirando novos ares. Sim, eu entrei no buraco do coelho das pegadas digitais dos dois e descobri curtas e ensaios fotográficos cheios de arte, simples assim. E foi aí que eles me lembraram uma pessoa aqui da minha cidade, que me transmitia uma ousadia criativa e que provocou em mim uma sensação parecida de respiro, de alegria e de um caos vívido e criador: Kency Porta, Francisco Júnior, membro do coletivo Salve Rainha.

Francisco das Chagas Jr- Kency Porta- Vencedor do prêmio Samdice de 2015

Durante um tempo, ele e um bom grupo de artistas se esforçaram em chamar a atenção da sociedade local para os espaços abandonados da cidade. Seja por meio da arte que produziam, da arte de outros artistas, que foram aparecendo e se identificando com o coletivo, seja por conseguir atrair um público considerável nos espaços abertos no centro, debaixo da ponte, em casarões abandonados, subaproveitados ou esquecidos pelo poder público. Era lindo! Vaguei pelo labirinto das exposições e me sentia de volta para uma cidade que eu gostaria que a minha fosse sempre- estava dividida entre duas cidades na época, por conta do doutorado.

Francisco das Chagas porta CataVento

Eu sofria, ainda em busca de um tratamento adequado para minha depressão, que ainda era percebida só como depressão. Mas sempre que eu via o trabalho do Jr, como Kency, que se destacava aos meus olhos, o modo como ele se vestia belamente como um príncipe vindo de um mar que não existe aqui ou de um mundo fantástico, simpático e verdadeiro no trabalho que fazia com os companheiros e aquilo tudo me abraçava, quando as minhas emoções não eram nada generosas comigo mesma. Ali eu estava encantada com tudo.

Lembro que ele saiu na Revestrés (revista cultural importante) e lembro que quiseram que o Parque Cidadania se chamasse Kency Parque e, mais recentemente, que o Museu da Imagem e do Som o homenageasse. Ainda não aconteceu a merecida homenagem, mas quem sabe um dia as pessoas capazes de decidir essas coisas, entendam que é importante lembrar do compromisso com uma cidade em seus momentos que ela amou a alegria e a arte em cada cantinho que parecia perdido para sempre- e do poder de um tipo de juventude realmente inauguradora do novo (e nem sempre isso acontece) que incentiva, que acolhe e que critica quando é preciso.

Todas nós, de todas as idades, somos atingidos pela juventude quando permitimos que esse tipo de irreverência vinda de uma libido saudável (e não doentia, como a da guerra) nos faça bem e preencha nosso riso e nossos sonhos. Acho que todo adulto ganha com uma série que recusa a fórmula Netflix -supermastigada- e que trata o sexo como beleza e alegria (o queer joy do Jacob), assim como com a minha cidade, que muitas vezes se fecha em neuroses hiperconservadoras (e autodestrutivas), ganhou com os frutos de Quency, com o Salve Rainha, seus encantamentos e as muitas ideias que surgiram naqueles encontros inesquecíveis- mas que a institucionalidade parece querer que nos esqueçamos.

ps. Jr amaria as fotos ousadas do Connor e o Leopard Land do Hudson, especialmente as que eles mais fogem do padrão. Ele seria uma inspiração, aliás, com osso da cabeça de boi e tudo. As imagens que aparecem aqui foram retiradas do instagram do salve rainha.

pps. isso não salva o mundo, mas salva vidas.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Heated Rivalry/Rivalidade Ardente: 11 motivos para assistir

    


O canadense Shane e o russo Ilya, casal protagonista da série.

✨PARA QUEM NÃO CONHECIA: ESSE É MEU LADO FANGIRL ✨


   No segundo semestre de 2025, minha amiga, conhecendo meu gosto (ambas fujoshis), avisou que tinham duas estreias que as redes sociais estavam comentando e que eu poderia gostar, um filme baseado em um mangá, 10Dance e uma série, baseada em uma série de livros de romance hot, Heated Rivalry (Rivalidade Ardente, como recentemente foi traduzido para o português). 

    Deixei 10dance para assistir agora em 2026 (fica aí a dica, foi lançado pela Netflix) e foquei nos livros sobre os jogadores de hockey, a série Game Changers, de Rachel Reids. Peguei os dois livros que seriam adaptados pelo Crave, streaming canadense e acompanhei as entrevistas na semana de estreia muito empolgada! Porque eu tinha gostado da história e do jeito que a Rachel escreveu romance MM dela, me surpreendendo positivamente (nem sempre acontece no subgênero, mesmo eu gostando haha).

    A semana do lançamento da série foi um surto, com o fã clube canadense dos livros enchendo as livrarias (que esgotaram lá e nos EUA) e o auditório onde o primeiro episódio seria assistido com a presença dos atores principais e do diretor e as redes sociais em polvorosa. Lembrando que o Canadá é um país que se esforça para uma boa convivência de gênero e cultura LGBT, não é perfeito, como nenhum lugar, mas está bem além, inclusive, de outros países ricos. Ou seja, havia um bom ambiente para a filmagem e para o lançamento, que também tem muito a ver com a prolífica união da autora, que é uma mulher bissexual, com o diretor (e roteirista), Jacob Tierney, que é um homem gay e que foi extremamente sensível ao olhar de Rachel e às expectativas das fãs. Tem realmente muitas cenas iguais às páginas dos livros de um jeito positivo, não engessado e no que está diferente é simplesmente encantador. Como algo classifica do como hot pode ser encantador? Aí está o segredo! Digamos que eu chorei nos 3 últimos episódios da série e nem sempre de tristeza.

Hudson (Shane), Jacob, Rachel e Connor (Ilya) no lançamento tímido diante do que vira


    A escolha do elenco, com certeza, foi determinante para o sucesso de Rivalidade Acirrada. Dois jovens atores, desconhecidos do grande público, mas com um currículo de trabalhos bastante ousados e criativos (alguns estão disponíveis no youtube e redes sociais), Connor Storrie, que interpreta o russo Ilya Rozanov e Hudson Williams, com Shane Hollander. Além disso, temos François Arnaud, que é o mais experiente do grupo, tendo atuado na série Os Borgias e seu parceiro de atuação, Robbie G.K., que se inserem na história, sendo protagonistas de um outro livro da série (o primeiro) e têm um papel fundamental na história de Shane e Ilya.


 
Scott (François) e Kip (Robbie).



    Depois de assisti-la pela HBO Max com VPN, ansiosa a cada episódio semanal que saía, acompanhei o desenrolar do sucesso exponencial da série na mídia, que passou de uma coisinha meio nichada, até levar os atores a apresentar o Globo de Ouro (esse mesmo que ganhamos com o Agente Secreto!) e aos programas de entrevistas mais famosos dos estragos unidos. Eles viraram as celebridades que as celebridades querem tirar fotos! Pior! Chegaram a um país que não tem o clima adequado ao hockey de gelo (risos) como o nosso, mas que é bastante adequado para a paixão que se desenrola na telinha (e isso foi meio brega, eu sei, mas eu virei uma fã, como você deve ter percebido). E foi assim que cheguei a esses: 11 pontos que fazem com que Rivalidade Ardente seja um ótimo entretenimento!

  1. É uma série +18 então, sim, teremos cenas picantes e digo mais! Muito bem ensaiadas e deliciosas. Mérito dos atores e da coordenadora de intimidade, a Chala Hunter (link para a entrevista com ela);
  2. Foi feita com um orçamento contadinho, o pessoal diz, de um caldo de cana com pastel e mesmo assim fez um verdadeiro milagre, bem redondinha e visualmente agradável de acompanhar;
  3. Mostra como a dificuldade de comunicação dos homens pode causar problemas também em relações que não são heteronormativas;
  4. Nós mulheres, como maior público de todos os tipos de romance, parecemos ter uma facilidade de conexão com a história porque não há um peso centrado em personagens femininas e seus papéis dos romances mais tradicionais (sobre isso, temos muito mais a dizer, fica o link dessa diva);
  5. As próprias personagens mulheres da série são absolutamente bem resolvidas, sem aquele drama repetitivo de todas as novelas e romances populares que me irritam profundamente. É muito boa a representação;
  6. As músicas complementam as cenas ao longo da série, com letras que dialogam com o foco de cada um de uma forma bem direta, quase como se saísse da boca dos personagens. Pra mim, que não costumo me importar tanto com isso, foi bem interessante ter mais essa camada para prestar atenção- tem até easter eggs em algumas. Mais uma vez, mérito do Jacob, o diretor, que teve o trabalho de montar esse quebra- cabeça de um jeito que parecesse orgânico;
  7. Por falar em easter egg, os episódios são cheio deles, mas nem sei se todas essas pistas deveriam ser chamadas de easter egg, porque muitas delas estão diretamente ligadas ao assunto principal, reforçando a necessidade de atenção, esse item tão escasso;
  8. A química! Toda entrevista que Connor e Hudson deram desde que a série estreou perguntou sobre isso. O que eu posso dizer é que é realmente palpável, você vai ficar com calor do outro lado da tela! E apesar disso, a história é um slow burn que acontece ao longo de 7 anos;
  9. A série é curta. São apenas 6 episódios. O que é uma pena. Eu recomendo não assistir todos de uma vez, a expectativa combina com o sentimento dos protagonistas (e série foi originalmente lançada como semanal, mas dividir em dois dias pelo menos, já ajuda);
  10. Nessa época tão conservadora e com tantos casos de assédio dando a entender que esse é o único palco possível para a expressão sexual humana, é um feito muito bem vindo;
  11. Por falar em feito muito bem vindo, a expressão da sexualidade gay de forma positiva, é um feito que anda sendo comemorado pela comunidade, que está enchendo as redes sociais de depoimentos comoventes, incluindo de ex-atletas de várias modalidades esportivas (link );


    E caso você, como eu, fique viciada na história de Shane e Ilya, saiba que ela já foi renovada pela HBO Max, que adquiriu os direitos da transmissão internacional! No Brasil, a primeira temporada estreia em fevereiro. 😉



PS.Esse não vai ser o último post sobre a série. 😈


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