quinta-feira, 30 de julho de 2026

Melhores do primeiro semestre (2026)

 



1. O melhor livro que você leu até agora, em 2026?  

Persian Boy- Mary Renault, ficção histórica. 

É eleeeee!!! O maioral!!! Bagoas! Que personagem ma-ra-vi-lho-so !!! É um sofredor? É um sofredor... Mas é tão bonita a criação desse jovem persa vai amadurecendo na imaginação da autora do que seria um estrangeiro conviver com os gregos de Alexandre, o Grande, cuja vida vai se misturando com a dele, até o derradeiro fim. Para quem gosta de ficção histórica, vai amar e achar lindo- e depois vai atrás de mais livros sobre esse período histórico.

um jovenzinho com roupas antigas como gregas dançando com um instrumento musical como pratos


2. A melhor continuação que você leu até agora, em 2026

Dinghai Fushen Records (de Fei Tian Ye Xiang). Não sei explicar a história? O último alquimista precisa convencer um guerreiro importante a se tornar o seu protetor para que ele possa restaurar a magia na Terra Divina (uma denominação antiga da China). Muita coisa acontece. Uma das coisas interessantes da história, é o pano de fundo das relações entre as várias etnias que formaram a China, mas isso uns 2000 anos atrás ou mais, os protagonistas foram criados em duas culturas diferentes e o autor deixa isso evidente na primeira metade da obra.




3. Algum lançamento do primeiro semestre que você ainda não leu, mas quer muito 

Não ando acompanhando muitos lançamentos, mas o último romance da Sérgia A. é um que me interessa. 

capa metade verde e metade roxa escrito: inventários são


4. O livro mais aguardado do segundo semestre

 Vento e Verdade (tradução de Wind and Truth, do Sanderson) e a tradução da Odisseia da Emily Wilson, que é tradutora e pesquisa feminismos, também. Tem toda uma treta porque a obra dela (a tradução) foi uma das consultadas pelo Nolan e o pessoal não gostou, porque ainda assim, Wilson criticou o filme. ahahahaha!! Ps. Não tem a tradução ainda, mas coloquei aqui, porque está na minha lista.

desenhos no estilo de vasos da antiguidade clássica grega- três mulheres


5. O livro que mais te decepcionou esse ano

Lady Sapiens. Acho que decepcionou é um pouco forte, mas poderia ser muito mais do que foi, pegou pontos muito básicos sobre como não há ciência quando a misoginia se impõe até sobre esqueletos e artefatos antigos, como se o machismo a ser desfeito fosse só aquele do século XIX, quando as interpretações desse tipo, de fato, eram mais comuns. O que eu quero dizer é que faltou mais ousadia.

Mas mesmo assim eu recomendo, especialmente se você nunca leu um livro de divulgação científica da arqueologia e afins, ou mesmo se nunca leu algo feminista.



6. O livro que mais te surpreendeu esse ano 

Araras Vermelhas (poesia) - Cida Pedrosa

Apenas um pedaço importante da história recente do país (a guerrilha do Araguaia), em um formato de poesia, sendo que dentro dele, couberam vários estilos que a autora apela para acrescentar uma certa visualidade e fazer com que as cenas que se desenrolam, envolvam a leitora em cantos, rios, perseguições, esperança, tortura e morte.



7. Novo autor favorito (que lançou seu primeiro livro nesse semestre, ou que você conheceu recentemente

Kamone Shirahama. Apesar de eu ter começado a ler os mangás dela em 2023, eu parei e retomei agora com o lançamento do anime. Adoráveis! E os livros de culinária são especiais. E meu sobrinho adorou assistir!



8*.Melhor releitura até agora (esse tópico não existe na tag original)

The Scum Villain's Self-Saving System (Mo Xiang Tong Xiu), porque é uma paródia das histórias de cultivo (monges e heróis com poderes) com harém (todas as mulheres da história se apaixonam pelo protagonista), que são comuns em parte do leste asiático. Li novamente porque eu sabia que era uma história que me faria rir e nisso foi muito acertada. O último que reli e que vale a menção novamente, são a maior parte dos Contos do Machado de Assis, que já mencionei aqui e que continuarei lendo até o final do ano.


na capa estão shen qin qiu e luo bighe, personagens principais da história, escondendo-se, dentro de um caixão de pedra. ambos vestem roupas da china antiga.


9. Seu personagem favorito mais recente 

A pequena participação da fênix Chon Ming, em Dinghai Fushen Records. Uma divindade em débito com um humano e por isso no futuro vai adotar e proteger um outro humano (em outra série). E que tem uma personalidade terrível. E você sabia que a China é um dos berços do mito da Fênix?

Chong Ming, o deus fênix, em destaque no fundo. Na frente os dois protagonistas.


10. Um livro que te fez chorar nesse primeiro semestre?

Gaza: Terra da Poesia. Esse dispensa explicação, mas não a recomendação: uma coletânea de poemas de escritores e escritoras que moraram ou ainda moram em Gaza. #freepalestine


11. Um livro que te deixou feliz nesse primeiro semestre Contos do Machado de Assis. Ai, Machado... Tão maravilhoso é relê-lo, tanto como lê-lo pela primeira vez. Se você tem mais de 30 anos e nunca revisitou o mestre, fica aí a dica pra pegar umas aulas com ele de novo. 🩷



12. Melhor adaptação cinematográfica de um livro que você assistiu até agora, em 2026

Heated Rivalry, baseada em livros que li, a melhor. Mas como já falei sobre no blog, acrescento mais duas, eu que não sou muito do audiovisual! Devoradores de Estrelas, baseado em livro e 10Dance, baseado em mangá, esses eu só assisti e mas gostei bem! ^^


Ryan Gosling, o Grace, de Devoradores de Estrelas.



13. Sua resenha favorita desse primeiro semestre (escrita ou em vídeo) .

Escolhi essa resenha (que gostei bastante) da Aline Aimée como exemplo, mas poderia ser qualquer uma do ótimo canal da diva! Esse tipo de poesia é parecido com o meu tipo de poesia autoral, aliás.







14. O livro mais bonito que você comprou ou ganhou esse ano

Memórias de Babel e Box da Pâmela Smith. Olha como é lindo! Não dá pra captar tudo numa imagem!






15. Quais livros você precisa ou quer muito ler até o final do ano?  

Vento e Verdade. Isso porque quando eu leio a tradução de um livro, depois de já ter lido em inglês, eu consigo observar se deixei passar alguma coisa e também passo a entrar em contato com o vocabulário criado pelos tradutores para o público brasileiro, que é preferível. Além disso, é bom reviver o final (ou quase final ) de uma história que ocupou tanto meu tempo e minha imaginação!


   

terça-feira, 9 de junho de 2026

a alma manda lembrança ança ança ança*

frente àquela lápide

espanto diante do escrito

"aqui jaz tuas conquistas"


ao portão do cemitério:

"nada em excesso"

leve alma andarilha

agora a pedra foi lavrada.

adiante, ominoso cartaz brilha:

"pé na estrada".


desenho de mulher de capa caminhando quando se depara com uma flor no chão
carta do jogo dixit 




  








* Para ler o título no ritmo da parlenda infantil "duas almas se encontraram".




domingo, 7 de junho de 2026

Sinais cósmicos de ***


Tu não me alcanças
falo desde a névoa
esparsa e lenta
a fala
umagrandeconcentraçãodeideiasemumpontosó
então
não se engane com a  c a l m a r i a . . .
não cruze meu  h o r i z o n t e . . .
de eventos
sem perceber, e s t a  t u a  c a m i s a  s e   
 
com horror lembrarás que
não vestias roupas...
















...
...
...

arroto cósmico!

aindabemquefoirápido...



a espaguetização de uma estrela- european southern observatory (eso)








* eerasseucorposeusangueseusossos
fiosmatériamenosquepoeiraespaguetificada

sexta-feira, 6 de março de 2026

Estrela é uma bola de gás brilhante

Imaginei que se os outros astros soubessem o que a Terra pensa deles, seriam generosos...


Betelgeuse apressou-se em alcançar o sucesso, ultrapassando o irmão Sol, que preferiu um cozinhar mais lento, jogar no seguro, sabe como é. A fraternidade é determinada por aquela joiazinha azul tão discreta, frente aos dois estouros celestiais, mantém-se como consciência flutuante, que escolhe voltar sua atenção e fazer correlações pouco convencionais. No inicio, tais correlações só fazem sentido para ela mas, depois, pela pura diversão, os astros maiores abraçam tudo o que ela oferece, adotando mesmo como uma verdade, por esse espaço de tempo tão breve, que fez coincidir suas existências. Já foram indiferentes um ao outro os irmãos, Betelgeuse teria outras irmãs de outro casamento, mas essas não foram incluídas dessa vez, a histórias delas é pode ser encontrada no capítulo que trata das Três Marias, que é posterior ao capítulo do cinturão de Órion, o Sol com seu Apolo, seu Rá, são histórias muito complicadas. Nesse momento, isso não importa, o jogo é que nesse espaço... de tempo..., esses imensos fornos lidam com o excesso de réguas e conceitos vindos das pequena joia, como brinquedos a serem levados a serio. Afinal de contas, ser leve é fundamental nessa irmandade, é o que se espera de uma bola de gás brilhante.


imagem de betelgeuse fornecida pela nasa em 1999, com um modelo mostrando onde ela está na constelação de Órion  e dados sobre tamanho etc


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Poesia: Walden e Outro dia

 Walden (versão 1)


Reencontrei o andarilho

nas prateleiras de "10 reais o livro".

Foi um bom desconto,

do tipo que o deixaria satisfeito em dizer:

melhor se fosse de graça!

Mas o livreiro tem contas a pagar.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Kency Porta e Heated Rivalry

Quando Piauí e Canadá se encontram (na minha cabeça):

Publicada originalmente na newsletter Clube de Profecias


Em dezembro eu me permiti assistir uma temporada inteira de uma série, coisa que eu não fazia já tem alguns anos. Não, não era Stranger Things, nem a série do palhaço assassino. Quem está mais perto de mim pelas redes ou pessoalmente deve ter adivinhado: estou falando da já minha queridíssima Heated Rivalry/Rivalidade Ardente (eu cometi uma postagem no blog destacando 11 motivos para você assistir), em português.

Fui assistir sem expectativa em termos de qualidade/investimento, porque se tratava em obra baseada em um livro de romance hot MM ou yaoi/bl/danmei, coisa de mulher e gays, que ninguém do mainstream quer saber. Ou que não queria.

O diretor/roteirista Jacob Tierney fez milagres, junto com sua equipe e especialmente os atores principais Connor Storrie e Hudson Williams. Os dois jovens atores, com pequenos papéis no currículo, mas investidos em uma qualidade criativa e de entrega que faz você, sabe, sentir que tá respirando novos ares. Sim, eu entrei no buraco do coelho das pegadas digitais dos dois e descobri curtas e ensaios fotográficos cheios de arte, simples assim. E foi aí que eles me lembraram uma pessoa aqui da minha cidade, que me transmitia uma ousadia criativa e que provocou em mim uma sensação parecida de respiro, de alegria e de um caos vívido e criador: Kency Porta, Francisco Júnior, membro do coletivo Salve Rainha.

Francisco das Chagas Jr- Kency Porta- Vencedor do prêmio Samdice de 2015

Durante um tempo, ele e um bom grupo de artistas se esforçaram em chamar a atenção da sociedade local para os espaços abandonados da cidade. Seja por meio da arte que produziam, da arte de outros artistas, que foram aparecendo e se identificando com o coletivo, seja por conseguir atrair um público considerável nos espaços abertos no centro, debaixo da ponte, em casarões abandonados, subaproveitados ou esquecidos pelo poder público. Era lindo! Vaguei pelo labirinto das exposições e me sentia de volta para uma cidade que eu gostaria que a minha fosse sempre- estava dividida entre duas cidades na época, por conta do doutorado.

Francisco das Chagas porta CataVento

Eu sofria, ainda em busca de um tratamento adequado para minha depressão, que ainda era percebida só como depressão. Mas sempre que eu via o trabalho do Jr, como Kency, que se destacava aos meus olhos, o modo como ele se vestia belamente como um príncipe vindo de um mar que não existe aqui ou de um mundo fantástico, simpático e verdadeiro no trabalho que fazia com os companheiros e aquilo tudo me abraçava, quando as minhas emoções não eram nada generosas comigo mesma. Ali eu estava encantada com tudo.

Lembro que ele saiu na Revestrés (revista cultural importante) e lembro que quiseram que o Parque Cidadania se chamasse Kency Parque e, mais recentemente, que o Museu da Imagem e do Som o homenageasse. Ainda não aconteceu a merecida homenagem, mas quem sabe um dia as pessoas capazes de decidir essas coisas, entendam que é importante lembrar do compromisso com uma cidade em seus momentos que ela amou a alegria e a arte em cada cantinho que parecia perdido para sempre- e do poder de um tipo de juventude realmente inauguradora do novo (e nem sempre isso acontece) que incentiva, que acolhe e que critica quando é preciso.

Todas nós, de todas as idades, somos atingidos pela juventude quando permitimos que esse tipo de irreverência vinda de uma libido saudável (e não doentia, como a da guerra) nos faça bem e preencha nosso riso e nossos sonhos. Acho que todo adulto ganha com uma série que recusa a fórmula Netflix -supermastigada- e que trata o sexo como beleza e alegria (o queer joy do Jacob), assim como com a minha cidade, que muitas vezes se fecha em neuroses hiperconservadoras (e autodestrutivas), ganhou com os frutos de Quency, com o Salve Rainha, seus encantamentos e as muitas ideias que surgiram naqueles encontros inesquecíveis- mas que a institucionalidade parece querer que nos esqueçamos.

ps. Jr amaria as fotos ousadas do Connor e o Leopard Land do Hudson, especialmente as que eles mais fogem do padrão. Ele seria uma inspiração, aliás, com osso da cabeça de boi e tudo. As imagens que aparecem aqui foram retiradas do instagram do salve rainha.

pps. isso não salva o mundo, mas salva vidas.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Heated Rivalry/Rivalidade Ardente: 11 motivos para assistir

    


O canadense Shane e o russo Ilya, casal protagonista da série.

✨PARA QUEM NÃO CONHECIA: ESSE É MEU LADO FANGIRL ✨


   No segundo semestre de 2025, minha amiga, conhecendo meu gosto (ambas fujoshis), avisou que tinham duas estreias que as redes sociais estavam comentando e que eu poderia gostar, um filme baseado em um mangá, 10Dance e uma série, baseada em uma série de livros de romance hot, Heated Rivalry (Rivalidade Ardente, como recentemente foi traduzido para o português). 

    Deixei 10dance para assistir agora em 2026 (fica aí a dica, foi lançado pela Netflix) e foquei nos livros sobre os jogadores de hockey, a série Game Changers, de Rachel Reids. Peguei os dois livros que seriam adaptados pelo Crave, streaming canadense e acompanhei as entrevistas na semana de estreia muito empolgada! Porque eu tinha gostado da história e do jeito que a Rachel escreveu romance MM dela, me surpreendendo positivamente (nem sempre acontece no subgênero, mesmo eu gostando haha).

    A semana do lançamento da série foi um surto, com o fã clube canadense dos livros enchendo as livrarias (que esgotaram lá e nos EUA) e o auditório onde o primeiro episódio seria assistido com a presença dos atores principais e do diretor e as redes sociais em polvorosa. Lembrando que o Canadá é um país que se esforça para uma boa convivência de gênero e cultura LGBT, não é perfeito, como nenhum lugar, mas está bem além, inclusive, de outros países ricos. Ou seja, havia um bom ambiente para a filmagem e para o lançamento, que também tem muito a ver com a prolífica união da autora, que é uma mulher bissexual, com o diretor (e roteirista), Jacob Tierney, que é um homem gay e que foi extremamente sensível ao olhar de Rachel e às expectativas das fãs. Tem realmente muitas cenas iguais às páginas dos livros de um jeito positivo, não engessado e no que está diferente é simplesmente encantador. Como algo classifica do como hot pode ser encantador? Aí está o segredo! Digamos que eu chorei nos 3 últimos episódios da série e nem sempre de tristeza.

Hudson (Shane), Jacob, Rachel e Connor (Ilya) no lançamento tímido diante do que vira


    A escolha do elenco, com certeza, foi determinante para o sucesso de Rivalidade Acirrada. Dois jovens atores, desconhecidos do grande público, mas com um currículo de trabalhos bastante ousados e criativos (alguns estão disponíveis no youtube e redes sociais), Connor Storrie, que interpreta o russo Ilya Rozanov e Hudson Williams, com Shane Hollander. Além disso, temos François Arnaud, que é o mais experiente do grupo, tendo atuado na série Os Borgias e seu parceiro de atuação, Robbie G.K., que se inserem na história, sendo protagonistas de um outro livro da série (o primeiro) e têm um papel fundamental na história de Shane e Ilya.


 
Scott (François) e Kip (Robbie).



    Depois de assisti-la pela HBO Max com VPN, ansiosa a cada episódio semanal que saía, acompanhei o desenrolar do sucesso exponencial da série na mídia, que passou de uma coisinha meio nichada, até levar os atores a apresentar o Globo de Ouro (esse mesmo que ganhamos com o Agente Secreto!) e aos programas de entrevistas mais famosos dos estragos unidos. Eles viraram as celebridades que as celebridades querem tirar fotos! Pior! Chegaram a um país que não tem o clima adequado ao hockey de gelo (risos) como o nosso, mas que é bastante adequado para a paixão que se desenrola na telinha (e isso foi meio brega, eu sei, mas eu virei uma fã, como você deve ter percebido). E foi assim que cheguei a esses: 11 pontos que fazem com que Rivalidade Ardente seja um ótimo entretenimento!

  1. É uma série +18 então, sim, teremos cenas picantes e digo mais! Muito bem ensaiadas e deliciosas. Mérito dos atores e da coordenadora de intimidade, a Chala Hunter (link para a entrevista com ela);
  2. Foi feita com um orçamento contadinho, o pessoal diz, de um caldo de cana com pastel e mesmo assim fez um verdadeiro milagre, bem redondinha e visualmente agradável de acompanhar;
  3. Mostra como a dificuldade de comunicação dos homens pode causar problemas também em relações que não são heteronormativas;
  4. Nós mulheres, como maior público de todos os tipos de romance, parecemos ter uma facilidade de conexão com a história porque não há um peso centrado em personagens femininas e seus papéis dos romances mais tradicionais (sobre isso, temos muito mais a dizer, fica o link dessa diva);
  5. As próprias personagens mulheres da série são absolutamente bem resolvidas, sem aquele drama repetitivo de todas as novelas e romances populares que me irritam profundamente. É muito boa a representação;
  6. As músicas complementam as cenas ao longo da série, com letras que dialogam com o foco de cada um de uma forma bem direta, quase como se saísse da boca dos personagens. Pra mim, que não costumo me importar tanto com isso, foi bem interessante ter mais essa camada para prestar atenção- tem até easter eggs em algumas. Mais uma vez, mérito do Jacob, o diretor, que teve o trabalho de montar esse quebra- cabeça de um jeito que parecesse orgânico;
  7. Por falar em easter egg, os episódios são cheio deles, mas nem sei se todas essas pistas deveriam ser chamadas de easter egg, porque muitas delas estão diretamente ligadas ao assunto principal, reforçando a necessidade de atenção, esse item tão escasso;
  8. A química! Toda entrevista que Connor e Hudson deram desde que a série estreou perguntou sobre isso. O que eu posso dizer é que é realmente palpável, você vai ficar com calor do outro lado da tela! E apesar disso, a história é um slow burn que acontece ao longo de 7 anos;
  9. A série é curta. São apenas 6 episódios. O que é uma pena. Eu recomendo não assistir todos de uma vez, a expectativa combina com o sentimento dos protagonistas (e série foi originalmente lançada como semanal, mas dividir em dois dias pelo menos, já ajuda);
  10. Nessa época tão conservadora e com tantos casos de assédio dando a entender que esse é o único palco possível para a expressão sexual humana, é um feito muito bem vindo;
  11. Por falar em feito muito bem vindo, a expressão da sexualidade gay de forma positiva, é um feito que anda sendo comemorado pela comunidade, que está enchendo as redes sociais de depoimentos comoventes, incluindo de ex-atletas de várias modalidades esportivas (link );


    E caso você, como eu, fique viciada na história de Shane e Ilya, saiba que ela já foi renovada pela HBO Max, que adquiriu os direitos da transmissão internacional! No Brasil, a primeira temporada estreia em fevereiro. 😉



PS.Esse não vai ser o último post sobre a série. 😈


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Malinação, dez poemas desesperados sobre o riacho mocha e eu num café

Muito bom quando você sai de casa esperando ver um amigo e encontra mais amigos. Semana passada fui conferir a publicação do primeiro livro de poesia do professor José Elielton, amigo da filosofia e de coletâneas e saí de lá não com um livro de poesia, mas com dois e uma atmosfera familiar com amigas e amigos que eu não via, tinha muito tempo. Uma menção mais que especial ao Luizir, mestre e amigo querido, que levei para além das aulas do mestrado, há muitos anos atrás- ainda que atualmente eu não seja a amiga mais presente do mundo.

Enquanto eu lia Malinação, fui surpreendida por uma virada no tom da poesia que eu não esperava. Se na primeira parte do livro eu intui um Elielton admirador de Manoel de Barros e até das metáforas do Rosa, sabendo que todos os três falam de sertões- sim, estou incluindo Manoel de Barros- tirando desse sertão a atmosfera, a fonte original de comparações, temas, a sua própria biografia e nosso eterno presente no interior do Brasil, depois, fui lançada a um cenário de sangue e pesadelos, alguns muito reais.

Já no caso do livro do oeirense Rogério Newton (mesma cidade natal da poeta Cynthia Osório, que já apareceu aqui), conhecido dos leitores da revista Revestrés, nos deparamos com "Dez Poemas Desesperados Sobre o Riacho Mocha". Não sendo seu primeiro livro de poesia, essa pequena obra vem cheia de um sentimento de indignação quanto ao descaso público a um dos marcos da da cidade. Rogério, que também estará esses dias na COP30, aproveitou a época do lançamento do livro, para reunir-se a outras pessoas preocupadas com a situação do veio d'água, nas ruas de Oeiras, com um microfone, uma manifestação-denúncia, na falta de um cuidado do riacho, que o próprio poeta testemunha há décadas. Quem nunca ficou com o coração partido de ver parte de sua história desrespeitada, especialmente uma viva (o riacho é vivo), como são quaisquer águas numa terra tão carente dela.

Em uma época de aquecimento global, que piora toda a situação de calor e seca do estado do Piauí, tornando mais irresponsável, quiçá perverso, esse descaso e outros que cada um de nós pode relatar de sua própria cidade, no que diz respeito ao aprofundamento de políticas ambientais que foquem na interação dos sistemas vivos e não-vivos de modo equilibrado, com o hiperfenômeno em foco.

E é claro que aproveitei para indicar as aulas gratuitas do professor Alexandre, que deixou disponível para quem quisesse entender melhor nosso nível de unidade com o planeta e as partes mais importantes dessa unidade, desde a formação da Terra, até um pouco depois da pandemia de 2020, destacando os limites planetários que estávamos ultrapassando quando do lançamento das aulas. Vale a pena parar para assistir.

A poesia do José Elielton é cheia dessas preocupações e apesar da construção de muitas imagens que evocam quase a um hermetismo simbólico, especialmente na parte que trata das profecias, elas, como os textos apocalípticos, falam mais do presente do que do futuro. Os iniciados na tradição poética do estado entendem, no mínimo, que o que parece a repetição da tradição, é simplesmente um cotidiano persistente e muitas vezes doloroso, não só no Piauí.

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dez poemas desesperados sobre o riacho mocha

2


o urubu enfia as unhas sujas

no coração imundo da galeria

sob o manto negro e a carne dura

presa de lodo e mau agouro


a água podre não se esquiva

ao olhar circunspecto de rapina

quer o bico fedido e voraz

sem luz alguma que ilumina


a não ser a fúria de roubar

bosta e detritos que há em cima

e dentro da água mais podre 

que a consciência que o anima


pois alma há nesse mundo escuro

penada de urubu faminto e truvo

 tão sujo como o dinheiro que fez

galeria de fezes te esconjuro


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Malinação


matutos meninos

com suas barrigas d´água

desandam destinos traçados


no corpo destroços expostos

presságios precários em vista

indicam futuros minguados


no fim carregado dos dias 

e rotos de tanto abismo

recusam a morte inventada

fundo verde: um chaveiro de pato de pelúcia e dois livros

Observação: Clique nos links! ❤


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Poema: depois da crise*

O galo canta 3 vezes

as estrelas perfuram 

a película que cobre o céu

meu olho arde

a fumaça doce, na noite fresca,

embalada no 

                         lento 

                                     movimento da 

                         rede

E você que nem sabe mais o que 

compõe o quadro 

da minha vida.

E eu que mal sei nomeá-los

p'ra te falar.



......................................................................


*Eu sei que é uma heresia explicar o poema, mas esse aí não é sobre relacionamento amoroso. 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Pequena playlist de comemoração- sentença do Bolsonaro

Apesar da grana curta, eu e mamis (dona Joseny Barros) fizemos a nossa comemoração pelo alívio da sentença de 27 anos e 3 meses do PIOR PRESIDENTE da história deste país, que, ainda não está pagando pela morte de quase 700.000 pessoas na época da pandemia e todos os seus crimes contra o meio ambiente, os povos indígenas, a infância etc, mas que já é um grande presente para quem lutou, brigou, adoeceu, perdeu oportunidades e, principalmente, perdeu pessoas próximas ao longo desses cerca de 10 anos de agitação que a direita e a extrema direita impuseram a esse país! Então, sim! Comemoramos e ainda comemoraremos mais!!!

Mão segurando copo de vinho branco


Um vinho branco, presente da cunhada, uma caixinha de som "cebrutius" e as músicas que pai e mãe me educaram, reforçando a educação que recebi nas ruas desse país! Que nós tenhamos um tipo de cancioneiro desses ao qual recorrer diz muito da nossa história! 

Mais emblemático ainda é que junto do principal acusado, vão também entusiastas da última ditadura, inclusive participantes dela. É lindo, é altamente satisfatória, é de chorar de alegria! Vale a pena lutar por cada centímetro do nosso senso de justiça coletivo (e constitucional! Já os EUA não podem ter tanta certeza assim). Nem sempre a justiça acontece, eu diria que nessas altas esferas, que ela quase nunca acontece, mas esse plutão em aquário, esse eclipse em peixes, foram especiais (piscadinha para o pessoa. de místicas).

Então, fica aí esse marco no blog, a memória de uma alegria e um alívio, que sendo compartilhando por tantos, confere um significado ainda mais potente. E a gente sabe o que fazer com essa potência: continuar!


🎼 PLAYLIST: RIO MUITO, UMA VIDA SEM HUMOR FICA MUITO PESADA (pode escolher vários cantores na hora de repetir)


Apesar de você

https://www.youtube.com/watch?v=bGAJlOwUgHY

Vou festejar!

https://www.youtube.com/watch?v=KmUe9VYxJYQ

Sanatório Geral

https://www.youtube.com/watch?v=P6C5bZOr3xQ

Pra não dizer que não falei das flores

https://www.youtube.com/watch?v=KdvsXn8oVPY

Canto das três raças

https://www.youtube.com/watch?v=dcVKb2ht6BE

Cartomante 

https://www.youtube.com/watch?v=MRjorTs7YxM

Volver a los 17

https://www.youtube.com/watch?v=krEMw8E5ZAg


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Comentário*: Só Garotos - Patti Smith

 




Eu sei que nosso tempo está vivendo seu próprio temor nuclear e mais um fim do mundo orquestrado pelos poderosos do mundo capitalista, mas dia desses eu fui contemplada com a leitura de um livro de escrita tão leve e gentil com as pessoas neles descritas, mesmo quando o tempo também não era gentil e leve com elas. Estou falando do famoso Only Kids/Só garotos, da Patti Smith.


Quem se sempre se sentiu estranho na vida ou se sentiu assim pelo menos em alguma fase dela, vai se identificar com a descrição que Patti faz de si e do seu grande companheiro Robert Mapplethorp. Mapplethorp, por sua vez, levou isso às últimas consequências, criando uma arte ousada, às vezes chocante, às vezes delicada e, na minha humilde opinião, maravilhosa. Patti criou o tecido de relações importantes e contribuiu criativamente com suas apresentações poéticas, desenhos e canções, em uma rede de artistas incríveis que perambulavam mais ou menos pelas mesmas ruas da Nova Iorque daquela época. O livro que ela escreveu, mais do que uma biografia de si é uma biografia da relação dos dois (processo, transmutações etc).


Ter aquela comunidade arrasada pela epidemia de AIDS da década de 1980 foi uma grande perda para a cultura dos EUA e do mundo e talvez até hoje estejamos pagando o preço por eles não terem cuidado dos seus filhos, como gostam de dizer. Algo parecido com a enorme perda cultural que a nossa ditadura fez com seu conservadorismo hipócrita, que foi parcialmente herdada pela jovem democracia. Mas essas são correlações que faço de forma passional (quem disse que a passionalidade não pode ser inteligente- além dos gregos?), ao sabor dessa leitura e da madrugada cheia de notícias. Mas quem quiser usar como tema de pesquisa, pode ficar à vontade, as entidades do mundo sabem como é preciso saber onde estão nos metendo de novo.




* Originalmente publicado na newsletter "Clube de Profecias".

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Exames Aleatórios de Imagem - Laís Romero

 

Exames Aleatórios de Imagem (2024), Laís Romero, Coleção Diabo na Aula, Ed. Mórula

Com mais um livro da Laís em mãos, fui sossegada de que encontraria algo bom naquelas páginas. Páginas aliás muito bem editadas, com um papel de qualidade, nome ousado na coleção (diabo na aula), páginas de cores alternadas em cinza e um amarelado. A capa, não sei se será um padrão da série, ou coincidência, lembra, de fato, as propagandas geométricas dos anos 2000, dos laboratórios de imagens da cidade. 

O título já nos avisa que encontraremos algumas imagens anatômicas e aí eu devo dizer que fui corajosa, posto que anatomia foi a primeira disciplina do curso de biologia, priscas eras atrás, que me recusei a cursar (a escusa de consciência como dilema ético não era levado em questão na prática, como pode ser levada hoje). Daí foi a porta de entrada para abandonar o curso. Eu havia tido alguma experiência com as feiras de ciência e de anatomia da escola e levei a serio minha reação. Mas que bom que um grande número de pessoas não vê problema nenhum nisso, seja para exercer as áreas de saúde, pesquisa e também a escrita literária, que no caso da autora, é tudo isso ao mesmo tempo.

folha interna com trecho do poema

Mas do jeito que escrevo, fica parecendo que tenho um livro gore em mãos. Ainda que a tragédia da vida e da morte estejam lá, a ironia, o humor e o simbólico, permitem que tenhamos acesso aos corpos, inteiros ou despedaçados, dos temas que Laís nos chama à atenção. O rio, a guerra, a criação, o feminicídio, a notícia, o sonho, a história, a maternidade, o amor e o tarô- e outros mais que surgem do desdobramento destes. O poema que dá nome ao livro, é um itinerário pela memória de alguém que não é ouvida.

O tema da guerra é um dos novos inspiradores da escrita da Laís, pelo menos desde que venho acompanhando seu trabalho, há mais de 10 anos. A violência sempre apareceu aqui e ali, como não é surpreendente quando a escritora é um ser humano mulher (dentre outros marcadores, estudei isso muito tempo, peço desculpas pela recorrência), sensível à certa categoria de sofrimento justamente por sê-la, ainda que caiba a cada uma porção dessas intercessões únicas,  mas... a dimensão da guerra, que é trazida até nós pela internet e pelo noticiário da tv e que contamina as mais variadas formas de arte, mesmo a feita em uma terra que insiste em permanecer longínqua, como a nossa, sobre uma terra que tornaram longínqua, como a Palestina. No nosso caso pelo menos há dúvida a respeito de uma possível escolha.

Se a Susan Sontag vem puxando o fio do novelo das possibilidades éticas de estarmos expostos a essas imagens terríveis de sofrimento distante, a arte surge como uma linguagem (lato sensu), com vocabulários próprios de aproximação ou distanciamento desse horror. E mesmo o Piauí, sempre tão distante da atenção do próprio país e até de si mesmo (estou fazendo aqui uma espécie de apelo), é capaz de abrigar escritoras sensíveis ao genocídio, ao ponto de escrever coisas de uma terrível beleza, como os poemas abaixo, num momento em que grande parte do jornalismo responsável pela divulgação daquelas mesmas imagens, é incapaz de emitir as palavras exigidas para descrevê-las: massacre, genocídio, assassinato de crianças. Se não o fazem por questões ideológicas, religiosas ou de patrocínio, também é algo muito sério. Mas no nosso caso, talvez a nossa complexa distância, herdada da colonização, permita, em uma consequência não desejada, uma liberdade de expressão que precisaria ser mais aproveitada*. Eis os poemas:

poesia de guerra

sem virar o rosto
à fúria do vazio
criado pelo explosivo
ali se calam os gritos 
tantos grudados à margem
do tecido burocrático
aquele lugar errante
onde os nomes
não fazem falta

a poeta palestina

o tempo todo a vida
está só começando
ainda no choro
de abertura pulmonar
alvéolos e brônquios 
árvores e troncos 
só começando
em cada instante

apartar e refazer
descosturar o verso
e remendar o rasgo

um último poema
antes do crime
de guerra

O assunto não é novo entre nós aqui, então seria im-pos-sí-vel que eu não me exaltasse (sim, aqui estou agitada). O pequeno livro de 90 páginas traz outros tesouros, como a jornada de um corpo que você vai acompanhando entre outros poemas que se intercalam com ele e, dentre os poemas dos arcanos do tarô, temos o belo "a temperança" em 4 versos e ainda os estranhos personagens que se arrastam pelo fundo do mar desde o início do livro, que vão ressurgindo. E para quem é do simbólico, há uma conversa a partir do tarô de Marselha que espelha vários dos temas que já apareceram e outros interesses da alma.

Termino esse pequeno texto comentando que já li três vezes o "Exames Aleatórios de Imagem" e ainda digo que, apesar de ser uma pessoa da releitura, não é sempre que um livro me entretém, como ele está fazendo. Como se eu estivesse conferindo o estado atual do imaginário de uma amiga e conversando com ele.

mais um trecho, poema "liquidado"


O que saiu sobre a obra e que pode te interessar!

Geleia Total (2025), "Exames Aleatórios de Imagem" citado entre os lançamentos da Laís. 

Entrevista recente na Revestrés.

Notícia do lançamento do livro no site da Revista Acrobata.

Site Pauta Cultural relaciona os últimos lançamentos da autora (2024/2025).

Fotos do bate-papo na Livraria Entrelivros, site literatura piauiense.

Nossa última postagem com ela foi sobre seu outro livro de poesias "Mátria".

*Eu deixei de fora a coerção social local sobre tantos assuntos políticos nas esferas públicas.

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