segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Kency Porta e Heated Rivalry

Quando Piauí e Canadá se encontram (na minha cabeça):

Publicada originalmente na newsletter Clube de Profecias


Em dezembro eu me permiti assistir uma temporada inteira de uma série, coisa que eu não fazia já tem alguns anos. Não, não era Stranger Things, nem a série do palhaço assassino. Quem está mais perto de mim pelas redes ou pessoalmente deve ter adivinhado: estou falando da já minha queridíssima Heated Rivalry/Rivalidade Ardente (eu cometi uma postagem no blog destacando 11 motivos para você assistir), em português.

Fui assistir sem expectativa em termos de qualidade/investimento, porque se tratava em obra baseada em um livro de romance hot MM ou yaoi/bl/danmei, coisa de mulher e gays, que ninguém do mainstream quer saber. Ou que não queria.

O diretor/roteirista Jacob Tierney fez milagres, junto com sua equipe e especialmente os atores principais Connor Storrie e Hudson Williams. Os dois jovens atores, com pequenos papéis no currículo, mas investidos em uma qualidade criativa e de entrega que faz você, sabe, sentir que tá respirando novos ares. Sim, eu entrei no buraco do coelho das pegadas digitais dos dois e descobri curtas e ensaios fotográficos cheios de arte, simples assim. E foi aí que eles me lembraram uma pessoa aqui da minha cidade, que me transmitia uma ousadia criativa e que provocou em mim uma sensação parecida de respiro, de alegria e de um caos vívido e criador: Kency Porta, Francisco Júnior, membro do coletivo Salve Rainha.

Francisco das Chagas Jr- Kency Porta- Vencedor do prêmio Samdice de 2015

Durante um tempo, ele e um bom grupo de artistas se esforçaram em chamar a atenção da sociedade local para os espaços abandonados da cidade. Seja por meio da arte que produziam, da arte de outros artistas, que foram aparecendo e se identificando com o coletivo, seja por conseguir atrair um público considerável nos espaços abertos no centro, debaixo da ponte, em casarões abandonados, subaproveitados ou esquecidos pelo poder público. Era lindo! Vaguei pelo labirinto das exposições e me sentia de volta para uma cidade que eu gostaria que a minha fosse sempre- estava dividida entre duas cidades na época, por conta do doutorado.

Francisco das Chagas porta CataVento

Eu sofria, ainda em busca de um tratamento adequado para minha depressão, que ainda era percebida só como depressão. Mas sempre que eu via o trabalho do Jr, como Kency, que se destacava aos meus olhos, o modo como ele se vestia belamente como um príncipe vindo de um mar que não existe aqui ou de um mundo fantástico, simpático e verdadeiro no trabalho que fazia com os companheiros e aquilo tudo me abraçava, quando as minhas emoções não eram nada generosas comigo mesma. Ali eu estava encantada com tudo.

Lembro que ele saiu na Revestrés (revista cultural importante) e lembro que quiseram que o Parque Cidadania se chamasse Kency Parque e, mais recentemente, que o Museu da Imagem e do Som o homenageasse. Ainda não aconteceu a merecida homenagem, mas quem sabe um dia as pessoas capazes de decidir essas coisas, entendam que é importante lembrar do compromisso com uma cidade em seus momentos que ela amou a alegria e a arte em cada cantinho que parecia perdido para sempre- e do poder de um tipo de juventude realmente inauguradora do novo (e nem sempre isso acontece) que incentiva, que acolhe e que critica quando é preciso.

Todas nós, de todas as idades, somos atingidos pela juventude quando permitimos que esse tipo de irreverência vinda de uma libido saudável (e não doentia, como a da guerra) nos faça bem e preencha nosso riso e nossos sonhos. Acho que todo adulto ganha com uma série que recusa a fórmula Netflix -supermastigada- e que trata o sexo como beleza e alegria (o queer joy do Jacob), assim como com a minha cidade, que muitas vezes se fecha em neuroses hiperconservadoras (e autodestrutivas), ganhou com os frutos de Quency, com o Salve Rainha, seus encantamentos e as muitas ideias que surgiram naqueles encontros inesquecíveis- mas que a institucionalidade parece querer que nos esqueçamos.

ps. Jr amaria as fotos ousadas do Connor e o Leopard Land do Hudson, especialmente as que eles mais fogem do padrão. Ele seria uma inspiração, aliás, com osso da cabeça de boi e tudo. As imagens que aparecem aqui foram retiradas do instagram do salve rainha.

pps. isso não salva o mundo, mas salva vidas.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Heated Rivalry/Rivalidade Ardente: 11 motivos para assistir

    


O canadense Shane e o russo Ilya, casal protagonista da série.

✨PARA QUEM NÃO CONHECIA: ESSE É MEU LADO FANGIRL ✨


   No segundo semestre de 2025, minha amiga, conhecendo meu gosto (ambas fujoshis), avisou que tinham duas estreias que as redes sociais estavam comentando e que eu poderia gostar, um filme baseado em um mangá, 10Dance e uma série, baseada em uma série de livros de romance hot, Heated Rivalry (Rivalidade Ardente, como recentemente foi traduzido para o português). 

    Deixei 10dance para assistir agora em 2026 (fica aí a dica, foi lançado pela Netflix) e foquei nos livros sobre os jogadores de hockey, a série Game Changers, de Rachel Reids. Peguei os dois livros que seriam adaptados pelo Crave, streaming canadense e acompanhei as entrevistas na semana de estreia muito empolgada! Porque eu tinha gostado da história e do jeito que a Rachel escreveu romance MM dela, me surpreendendo positivamente (nem sempre acontece no subgênero, mesmo eu gostando haha).

    A semana do lançamento da série foi um surto, com o fã clube canadense dos livros enchendo as livrarias (que esgotaram lá e nos EUA) e o auditório onde o primeiro episódio seria assistido com a presença dos atores principais e do diretor e as redes sociais em polvorosa. Lembrando que o Canadá é um país que se esforça para uma boa convivência de gênero e cultura LGBT, não é perfeito, como nenhum lugar, mas está bem além, inclusive, de outros países ricos. Ou seja, havia um bom ambiente para a filmagem e para o lançamento, que também tem muito a ver com a prolífica união da autora, que é uma mulher bissexual, com o diretor (e roteirista), Jacob Tierney, que é um homem gay e que foi extremamente sensível ao olhar de Rachel e às expectativas das fãs. Tem realmente muitas cenas iguais às páginas dos livros de um jeito positivo, não engessado e no que está diferente é simplesmente encantador. Como algo classifica do como hot pode ser encantador? Aí está o segredo! Digamos que eu chorei nos 3 últimos episódios da série e nem sempre de tristeza.

Hudson (Shane), Jacob, Rachel e Connor (Ilya) no lançamento tímido diante do que vira


    A escolha do elenco, com certeza, foi determinante para o sucesso de Rivalidade Acirrada. Dois jovens atores, desconhecidos do grande público, mas com um currículo de trabalhos bastante ousados e criativos (alguns estão disponíveis no youtube e redes sociais), Connor Storrie, que interpreta o russo Ilya Rozanov e Hudson Williams, com Shane Hollander. Além disso, temos François Arnaud, que é o mais experiente do grupo, tendo atuado na série Os Borgias e seu parceiro de atuação, Robbie G.K., que se inserem na história, sendo protagonistas de um outro livro da série (o primeiro) e têm um papel fundamental na história de Shane e Ilya.


 
Scott (François) e Kip (Robbie).



    Depois de assisti-la pela HBO Max com VPN, ansiosa a cada episódio semanal que saía, acompanhei o desenrolar do sucesso exponencial da série na mídia, que passou de uma coisinha meio nichada, até levar os atores a apresentar o Globo de Ouro (esse mesmo que ganhamos com o Agente Secreto!) e aos programas de entrevistas mais famosos dos estragos unidos. Eles viraram as celebridades que as celebridades querem tirar fotos! Pior! Chegaram a um país que não tem o clima adequado ao hockey de gelo (risos) como o nosso, mas que é bastante adequado para a paixão que se desenrola na telinha (e isso foi meio brega, eu sei, mas eu virei uma fã, como você deve ter percebido). E foi assim que cheguei a esses: 11 pontos que fazem com que Rivalidade Ardente seja um ótimo entretenimento!

  1. É uma série +18 então, sim, teremos cenas picantes e digo mais! Muito bem ensaiadas e deliciosas. Mérito dos atores e da coordenadora de intimidade, a Chala Hunter (link para a entrevista com ela);
  2. Foi feita com um orçamento contadinho, o pessoal diz, de um caldo de cana com pastel e mesmo assim fez um verdadeiro milagre, bem redondinha e visualmente agradável de acompanhar;
  3. Mostra como a dificuldade de comunicação dos homens pode causar problemas também em relações que não são heteronormativas;
  4. Nós mulheres, como maior público de todos os tipos de romance, parecemos ter uma facilidade de conexão com a história porque não há um peso centrado em personagens femininas e seus papéis dos romances mais tradicionais (sobre isso, temos muito mais a dizer, fica o link dessa diva);
  5. As próprias personagens mulheres da série são absolutamente bem resolvidas, sem aquele drama repetitivo de todas as novelas e romances populares que me irritam profundamente. É muito boa a representação;
  6. As músicas complementam as cenas ao longo da série, com letras que dialogam com o foco de cada um de uma forma bem direta, quase como se saísse da boca dos personagens. Pra mim, que não costumo me importar tanto com isso, foi bem interessante ter mais essa camada para prestar atenção- tem até easter eggs em algumas. Mais uma vez, mérito do Jacob, o diretor, que teve o trabalho de montar esse quebra- cabeça de um jeito que parecesse orgânico;
  7. Por falar em easter egg, os episódios são cheio deles, mas nem sei se todas essas pistas deveriam ser chamadas de easter egg, porque muitas delas estão diretamente ligadas ao assunto principal, reforçando a necessidade de atenção, esse item tão escasso;
  8. A química! Toda entrevista que Connor e Hudson deram desde que a série estreou perguntou sobre isso. O que eu posso dizer é que é realmente palpável, você vai ficar com calor do outro lado da tela! E apesar disso, a história é um slow burn que acontece ao longo de 7 anos;
  9. A série é curta. São apenas 6 episódios. O que é uma pena. Eu recomendo não assistir todos de uma vez, a expectativa combina com o sentimento dos protagonistas (e série foi originalmente lançada como semanal, mas dividir em dois dias pelo menos, já ajuda);
  10. Nessa época tão conservadora e com tantos casos de assédio dando a entender que esse é o único palco possível para a expressão sexual humana, é um feito muito bem vindo;
  11. Por falar em feito muito bem vindo, a expressão da sexualidade gay de forma positiva, é um feito que anda sendo comemorado pela comunidade, que está enchendo as redes sociais de depoimentos comoventes, incluindo de ex-atletas de várias modalidades esportivas (link );


    E caso você, como eu, fique viciada na história de Shane e Ilya, saiba que ela já foi renovada pela HBO Max, que adquiriu os direitos da transmissão internacional! No Brasil, a primeira temporada estreia em fevereiro. 😉



PS.Esse não vai ser o último post sobre a série. 😈


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Malinação, dez poemas desesperados sobre o riacho mocha e eu num café

Muito bom quando você sai de casa esperando ver um amigo e encontra mais amigos. Semana passada fui conferir a publicação do primeiro livro de poesia do professor José Elielton, amigo da filosofia e de coletâneas e saí de lá não com um livro de poesia, mas com dois e uma atmosfera familiar com amigas e amigos que eu não via, tinha muito tempo. Uma menção mais que especial ao Luizir, mestre e amigo querido, que levei para além das aulas do mestrado, há muitos anos atrás- ainda que atualmente eu não seja a amiga mais presente do mundo.

Enquanto eu lia Malinação, fui surpreendida por uma virada no tom da poesia que eu não esperava. Se na primeira parte do livro eu intui um Elielton admirador de Manoel de Barros e até das metáforas do Rosa, sabendo que todos os três falam de sertões- sim, estou incluindo Manoel de Barros- tirando desse sertão a atmosfera, a fonte original de comparações, temas, a sua própria biografia e nosso eterno presente no interior do Brasil, depois, fui lançada a um cenário de sangue e pesadelos, alguns muito reais.

Já no caso do livro do oeirense Rogério Newton (mesma cidade natal da poeta Cynthia Osório, que já apareceu aqui), conhecido dos leitores da revista Revestrés, nos deparamos com "Dez Poemas Desesperados Sobre o Riacho Mocha". Não sendo seu primeiro livro de poesia, essa pequena obra vem cheia de um sentimento de indignação quanto ao descaso público a um dos marcos da da cidade. Rogério, que também estará esses dias na COP30, aproveitou a época do lançamento do livro, para reunir-se a outras pessoas preocupadas com a situação do veio d'água, nas ruas de Oeiras, com um microfone, uma manifestação-denúncia, na falta de um cuidado do riacho, que o próprio poeta testemunha há décadas. Quem nunca ficou com o coração partido de ver parte de sua história desrespeitada, especialmente uma viva (o riacho é vivo), como são quaisquer águas numa terra tão carente dela.

Em uma época de aquecimento global, que piora toda a situação de calor e seca do estado do Piauí, tornando mais irresponsável, quiçá perverso, esse descaso e outros que cada um de nós pode relatar de sua própria cidade, no que diz respeito ao aprofundamento de políticas ambientais que foquem na interação dos sistemas vivos e não-vivos de modo equilibrado, com o hiperfenômeno em foco.

E é claro que aproveitei para indicar as aulas gratuitas do professor Alexandre, que deixou disponível para quem quisesse entender melhor nosso nível de unidade com o planeta e as partes mais importantes dessa unidade, desde a formação da Terra, até um pouco depois da pandemia de 2020, destacando os limites planetários que estávamos ultrapassando quando do lançamento das aulas. Vale a pena parar para assistir.

A poesia do José Elielton é cheia dessas preocupações e apesar da construção de muitas imagens que evocam quase a um hermetismo simbólico, especialmente na parte que trata das profecias, elas, como os textos apocalípticos, falam mais do presente do que do futuro. Os iniciados na tradição poética do estado entendem, no mínimo, que o que parece a repetição da tradição, é simplesmente um cotidiano persistente e muitas vezes doloroso, não só no Piauí.

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dez poemas desesperados sobre o riacho mocha

2


o urubu enfia as unhas sujas

no coração imundo da galeria

sob o manto negro e a carne dura

presa de lodo e mau agouro


a água podre não se esquiva

ao olhar circunspecto de rapina

quer o bico fedido e voraz

sem luz alguma que ilumina


a não ser a fúria de roubar

bosta e detritos que há em cima

e dentro da água mais podre 

que a consciência que o anima


pois alma há nesse mundo escuro

penada de urubu faminto e truvo

 tão sujo como o dinheiro que fez

galeria de fezes te esconjuro


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Malinação


matutos meninos

com suas barrigas d´água

desandam destinos traçados


no corpo destroços expostos

presságios precários em vista

indicam futuros minguados


no fim carregado dos dias 

e rotos de tanto abismo

recusam a morte inventada

fundo verde: um chaveiro de pato de pelúcia e dois livros

Observação: Clique nos links! ❤


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Poema: depois da crise*

O galo canta 3 vezes

as estrelas perfuram 

a película que cobre o céu

meu olho arde

a fumaça doce, na noite fresca,

embalada no 

                         lento 

                                     movimento da 

                         rede

E você que nem sabe mais o que 

compõe o quadro 

da minha vida.

E eu que mal sei nomeá-los

p'ra te falar.



......................................................................


*Eu sei que é uma heresia explicar o poema, mas esse aí não é sobre relacionamento amoroso. 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Pequena playlist de comemoração- sentença do Bolsonaro

Apesar da grana curta, eu e mamis (dona Joseny Barros) fizemos a nossa comemoração pelo alívio da sentença de 27 anos e 3 meses do PIOR PRESIDENTE da história deste país, que, ainda não está pagando pela morte de quase 700.000 pessoas na época da pandemia e todos os seus crimes contra o meio ambiente, os povos indígenas, a infância etc, mas que já é um grande presente para quem lutou, brigou, adoeceu, perdeu oportunidades e, principalmente, perdeu pessoas próximas ao longo desses cerca de 10 anos de agitação que a direita e a extrema direita impuseram a esse país! Então, sim! Comemoramos e ainda comemoraremos mais!!!

Mão segurando copo de vinho branco


Um vinho branco, presente da cunhada, uma caixinha de som "cebrutius" e as músicas que pai e mãe me educaram, reforçando a educação que recebi nas ruas desse país! Que nós tenhamos um tipo de cancioneiro desses ao qual recorrer diz muito da nossa história! 

Mais emblemático ainda é que junto do principal acusado, vão também entusiastas da última ditadura, inclusive participantes dela. É lindo, é altamente satisfatória, é de chorar de alegria! Vale a pena lutar por cada centímetro do nosso senso de justiça coletivo (e constitucional! Já os EUA não podem ter tanta certeza assim). Nem sempre a justiça acontece, eu diria que nessas altas esferas, que ela quase nunca acontece, mas esse plutão em aquário, esse eclipse em peixes, foram especiais (piscadinha para o pessoa. de místicas).

Então, fica aí esse marco no blog, a memória de uma alegria e um alívio, que sendo compartilhando por tantos, confere um significado ainda mais potente. E a gente sabe o que fazer com essa potência: continuar!


🎼 PLAYLIST: RIO MUITO, UMA VIDA SEM HUMOR FICA MUITO PESADA (pode escolher vários cantores na hora de repetir)


Apesar de você

https://www.youtube.com/watch?v=bGAJlOwUgHY

Vou festejar!

https://www.youtube.com/watch?v=KmUe9VYxJYQ

Sanatório Geral

https://www.youtube.com/watch?v=P6C5bZOr3xQ

Pra não dizer que não falei das flores

https://www.youtube.com/watch?v=KdvsXn8oVPY

Canto das três raças

https://www.youtube.com/watch?v=dcVKb2ht6BE

Cartomante 

https://www.youtube.com/watch?v=MRjorTs7YxM

Volver a los 17

https://www.youtube.com/watch?v=krEMw8E5ZAg


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Comentário*: Só Garotos - Patti Smith

 




Eu sei que nosso tempo está vivendo seu próprio temor nuclear e mais um fim do mundo orquestrado pelos poderosos do mundo capitalista, mas dia desses eu fui contemplada com a leitura de um livro de escrita tão leve e gentil com as pessoas neles descritas, mesmo quando o tempo também não era gentil e leve com elas. Estou falando do famoso Only Kids/Só garotos, da Patti Smith.


Quem se sempre se sentiu estranho na vida ou se sentiu assim pelo menos em alguma fase dela, vai se identificar com a descrição que Patti faz de si e do seu grande companheiro Robert Mapplethorp. Mapplethorp, por sua vez, levou isso às últimas consequências, criando uma arte ousada, às vezes chocante, às vezes delicada e, na minha humilde opinião, maravilhosa. Patti criou o tecido de relações importantes e contribuiu criativamente com suas apresentações poéticas, desenhos e canções, em uma rede de artistas incríveis que perambulavam mais ou menos pelas mesmas ruas da Nova Iorque daquela época. O livro que ela escreveu, mais do que uma biografia de si é uma biografia da relação dos dois (processo, transmutações etc).


Ter aquela comunidade arrasada pela epidemia de AIDS da década de 1980 foi uma grande perda para a cultura dos EUA e do mundo e talvez até hoje estejamos pagando o preço por eles não terem cuidado dos seus filhos, como gostam de dizer. Algo parecido com a enorme perda cultural que a nossa ditadura fez com seu conservadorismo hipócrita, que foi parcialmente herdada pela jovem democracia. Mas essas são correlações que faço de forma passional (quem disse que a passionalidade não pode ser inteligente- além dos gregos?), ao sabor dessa leitura e da madrugada cheia de notícias. Mas quem quiser usar como tema de pesquisa, pode ficar à vontade, as entidades do mundo sabem como é preciso saber onde estão nos metendo de novo.




* Originalmente publicado na newsletter "Clube de Profecias".

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Exames Aleatórios de Imagem - Laís Romero

 

Exames Aleatórios de Imagem (2024), Laís Romero, Coleção Diabo na Aula, Ed. Mórula

Com mais um livro da Laís em mãos, fui sossegada de que encontraria algo bom naquelas páginas. Páginas aliás muito bem editadas, com um papel de qualidade, nome ousado na coleção (diabo na aula), páginas de cores alternadas em cinza e um amarelado. A capa, não sei se será um padrão da série, ou coincidência, lembra, de fato, as propagandas geométricas dos anos 2000, dos laboratórios de imagens da cidade. 

O título já nos avisa que encontraremos algumas imagens anatômicas e aí eu devo dizer que fui corajosa, posto que anatomia foi a primeira disciplina do curso de biologia, priscas eras atrás, que me recusei a cursar (a escusa de consciência como dilema ético não era levado em questão na prática, como pode ser levada hoje). Daí foi a porta de entrada para abandonar o curso. Eu havia tido alguma experiência com as feiras de ciência e de anatomia da escola e levei a serio minha reação. Mas que bom que um grande número de pessoas não vê problema nenhum nisso, seja para exercer as áreas de saúde, pesquisa e também a escrita literária, que no caso da autora, é tudo isso ao mesmo tempo.

folha interna com trecho do poema

Mas do jeito que escrevo, fica parecendo que tenho um livro gore em mãos. Ainda que a tragédia da vida e da morte estejam lá, a ironia, o humor e o simbólico, permitem que tenhamos acesso aos corpos, inteiros ou despedaçados, dos temas que Laís nos chama à atenção. O rio, a guerra, a criação, o feminicídio, a notícia, o sonho, a história, a maternidade, o amor e o tarô- e outros mais que surgem do desdobramento destes. O poema que dá nome ao livro, é um itinerário pela memória de alguém que não é ouvida.

O tema da guerra é um dos novos inspiradores da escrita da Laís, pelo menos desde que venho acompanhando seu trabalho, há mais de 10 anos. A violência sempre apareceu aqui e ali, como não é surpreendente quando a escritora é um ser humano mulher (dentre outros marcadores, estudei isso muito tempo, peço desculpas pela recorrência), sensível à certa categoria de sofrimento justamente por sê-la, ainda que caiba a cada uma porção dessas intercessões únicas,  mas... a dimensão da guerra, que é trazida até nós pela internet e pelo noticiário da tv e que contamina as mais variadas formas de arte, mesmo a feita em uma terra que insiste em permanecer longínqua, como a nossa, sobre uma terra que tornaram longínqua, como a Palestina. No nosso caso pelo menos há dúvida a respeito de uma possível escolha.

Se a Susan Sontag vem puxando o fio do novelo das possibilidades éticas de estarmos expostos a essas imagens terríveis de sofrimento distante, a arte surge como uma linguagem (lato sensu), com vocabulários próprios de aproximação ou distanciamento desse horror. E mesmo o Piauí, sempre tão distante da atenção do próprio país e até de si mesmo (estou fazendo aqui uma espécie de apelo), é capaz de abrigar escritoras sensíveis ao genocídio, ao ponto de escrever coisas de uma terrível beleza, como os poemas abaixo, num momento em que grande parte do jornalismo responsável pela divulgação daquelas mesmas imagens, é incapaz de emitir as palavras exigidas para descrevê-las: massacre, genocídio, assassinato de crianças. Se não o fazem por questões ideológicas, religiosas ou de patrocínio, também é algo muito sério. Mas no nosso caso, talvez a nossa complexa distância, herdada da colonização, permita, em uma consequência não desejada, uma liberdade de expressão que precisaria ser mais aproveitada*. Eis os poemas:

poesia de guerra

sem virar o rosto
à fúria do vazio
criado pelo explosivo
ali se calam os gritos 
tantos grudados à margem
do tecido burocrático
aquele lugar errante
onde os nomes
não fazem falta

a poeta palestina

o tempo todo a vida
está só começando
ainda no choro
de abertura pulmonar
alvéolos e brônquios 
árvores e troncos 
só começando
em cada instante

apartar e refazer
descosturar o verso
e remendar o rasgo

um último poema
antes do crime
de guerra

O assunto não é novo entre nós aqui, então seria im-pos-sí-vel que eu não me exaltasse (sim, aqui estou agitada). O pequeno livro de 90 páginas traz outros tesouros, como a jornada de um corpo que você vai acompanhando entre outros poemas que se intercalam com ele e, dentre os poemas dos arcanos do tarô, temos o belo "a temperança" em 4 versos e ainda os estranhos personagens que se arrastam pelo fundo do mar desde o início do livro, que vão ressurgindo. E para quem é do simbólico, há uma conversa a partir do tarô de Marselha que espelha vários dos temas que já apareceram e outros interesses da alma.

Termino esse pequeno texto comentando que já li três vezes o "Exames Aleatórios de Imagem" e ainda digo que, apesar de ser uma pessoa da releitura, não é sempre que um livro me entretém, como ele está fazendo. Como se eu estivesse conferindo o estado atual do imaginário de uma amiga e conversando com ele.

mais um trecho, poema "liquidado"


O que saiu sobre a obra e que pode te interessar!

Geleia Total (2025), "Exames Aleatórios de Imagem" citado entre os lançamentos da Laís. 

Entrevista recente na Revestrés.

Notícia do lançamento do livro no site da Revista Acrobata.

Site Pauta Cultural relaciona os últimos lançamentos da autora (2024/2025).

Fotos do bate-papo na Livraria Entrelivros, site literatura piauiense.

Nossa última postagem com ela foi sobre seu outro livro de poesias "Mátria".

*Eu deixei de fora a coerção social local sobre tantos assuntos políticos nas esferas públicas.

terça-feira, 6 de maio de 2025

flor de sangue, deus do infortúnio

 

a alegria do reencontro 

um cheiro de flor e de sangue

estende a mão 

sente-lhe os ossos no escuro

lê um oráculo viciado 

agradece 

terça-feira, 22 de abril de 2025

8 fantasias excelentes!

Essa postagem é para quem quer entrar de cabeça no mundo dos livros de fantasia, mas não quer recorrer ao lugar comum, aqueles mais mais famosos, sejam polêmicos ou não, não vão aparecer aqui. 🫦

E aí vai! 

1. Trilogia da Terra Partida- NK. Jeminsin: 

Nível: difícil 

Um mundo em ruínas, mas com regras! Pessoas tentando sobreviver, questões ambientais, o racismo e colorismo sendo apresentados como se tivessem chegado a um tipo de extremo manifestado nessas regras e em poderes de alguns poucos escolhidos (ou amaldiçoados?). Não está entendendo nada?? Não se preocupe, o mais importante é seguir junto o caminho das duas protagonistas, uma mãe e sua filha, que estão vivendo em plena quinta estação, que não tem nada a ver com as quatro estações dos tempos comuns. 

Ah! E tem um vilão muito interessante, um dos meus personagens favoritos da história.


2. Duologia Dreamblood- NK Jeminsin: 

Nível: médio 

Sim, nesta casa amamos e respeitamos NK Jeminsin (apesar de eu não ter gostado de Nós Somos a Cidade, desculpe, rainha!). 

Simplesmente MA-RA-VI-LHO-SO! Se você gosta de "místicas", de histórias que se passam em desertos ou que se inspiram em narrativas do Egito antigo (apesar de não ter esse nome) ou nos povo nômades, essa é para você! 

Cidades e povos com relações em níveis diferentes com seus deuses, que também são os acidentes geográficos da região, o mundo dos sonhos e os condutores das regras morais e sociais, vamos acompanhar sacerdotes responsáveis pela vida, pela morte e pelos sonhos das pessoas comuns e da nobreza e também crianças órfãs de todo tipo, que crescem e se vingam ou só querem ficar em paz. Ah e fala de amor, também. ♥️

3. Carry on/ Sempre em frente

Nível: fácil 

Uma trilogia que começa em uma escola de magia, mas não se concentra exatamente nela. O mundo não é o foco da construção da autora, mas sim um trio de jovens diverso, que passam a conviver cada vez mais por conta de problemas que enfrentam. Parece familiar? Porque é! Mas não se preocupe, a história da Rainbow Rowell é bem mais leve, com toques LGBT, que eu particularmente achei adorável. Você lê muito rápido. 

4. A Casa do Mar Cerúleo

Nível: fácil 

Simplesmente a coisinha mais fofa! Começando pela capa! Um dia, o melhor burocrata da empresa, Linus Baker, é enviado para investigar um lar que abriga crianças diferentes, consideradas as mais perigosas de todos os orfanatos. Lá, inclusive, ele encontrará o próprio filho do capeta em pessoa, o pequeno Lúcifer.

A história fala de superação das diferenças e sobre família encontrada. Recomendo fortemente ele e a sua sequência, que saiu faz pouco tempo em inglês: Somewhere beyond The Sea. 

5. Mistborn

Nível: médio/difícil 

Até parece que eu gosto de distopia! Mas a verdade é que é empolgante demais acompanhar esse grupo de pessoas tentando derrubar um tirano, enquanto voam pela cidade com seus poderes vindos do metal. Opa! Só alguns conseguirem voar, são os tais Mistborn, nascido das brumas, um conceito que vai se aplicando a medida que você vai se aprofundando nesse mundo. Até agora minha trilogia favorita é a da primeira era, mas se você gostar tanto do universo que o Sanderson vai criando lá, pode continuar pela segunda era e mais livros da famosa Cosmere

6. Mar Sem Estrelas

Nível: médio 

Para quem gosta de fantasia bem viajada, sem necessariamente um fim, se estendendo por vários fios além dos nossos personagens principais: este é o livro. O jovem Esdra um dia recebe um convite para um baile de máscara onde as pessoas vão fantasiadas de personagens de livros. Curioso sobre a festa e querendo saber mais a respeito de um livro misterioso que contém parte de sua própria história, ele se envereda por corredores, florestas, mares e colmeias, para juntar os pedaços de si e dessa história. 

É muito lindo! 

7. Enraizados (volume único!):

Nível: fácil/médio 

Eu sou fascinada por livros que falam sobre florestas sombrias e nesse temos uma com uma boa história ao redor dela. A personagem principal não é insuportável, o que já é um ponto positivo para esse tipo de livro jovem e mundo, apesar de ir se revelando à medida a mocinha amadurece com seus poderes, vai prendendo a leitora. O romance não atrapalha o desenvolvimento da história e não é o foco. O par dela (o dragão) é carismático, adoro ele. 

Mas como eu falei antes: foco na floresta, que você vai se dar bem. 😉

8. Os Noivos do Inverno

Nível: médio/difícil 

Esse é o título é o nome do primeiro livro dessa quadrilogia excelente para quem gosta de construção de mundo (um mundo partido e flutuante!) e um desenvolvimento bem lento da relação entre os personagens. Apesar do título, não se trata realmente de um romance romântico e mais de uma aventura de Ofélia e Torn, tentando desvendar os mistérios que aparecem diante deles, que parecem tentar eliminá-los a qualquer custo. No meio disso vão tentando se entender, com suas personalidades e poderes bastante complicados. 

O que eu posso dizer? Eu adorei cada página dessa quadrilogia e dei um jeito de eu mesma traduzir a versão em francês do último volume, assim que saiu. Para nossa sorte, eles todos já foram traduzidos para o português. Mas já aviso: chorei horrores no final. 🤧


🚨 Eu decidi parar por aqui. Vou apenas ressaltar que sim deixei de mencionar mais alguns Sandersons e TODOS os livros de fantasia chinesa que adoro. Principalmente porque boa parte deles ainda está sendo traduzido para o português, enquanto outros nem sequer previsão tem... 🥲 Mas já digo que farei uma postagem para incluí-los mais adiante. 

sábado, 5 de abril de 2025

Lendo o Coração das Trevas em 2025

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Terminei de ler ontem Coração das trevas (1899), do Joseph Conrad. Do autor, eu só havia lido A Juventude. Essa edição da companhia das letras tem 214 páginas, reúne a história principal e um conto, além de um posfácio muito interessante. 

O livro ficou particularmente famoso na época, por ser uma denúncia das práticas coloniais da europa, especialmente no Congo, que havia caído nas mãos do sanguinário rei Belga Leopoldo II. Apesar da história ocorrer antes do recrudescimento do que já era a barbárie branca, se passando antes do terrível ciclo da borracha, ela teve uma recepção em um meio que já discutia, pelo menos formalmente, o fim da escravidão no mundo inteiro, sendo o próprio Brasil considerado uma vitória desse movimento, com o fim do tráfico negreiro em 1950 (com muitas aspas). 

Depois a fama se consolidou quando esse livro foi adaptado em Apocalipse Now (1979), onde em vez do Congo, tem-se o Vietnã. 

Da minha parte eu achei a escrita de Conrad de qualidade, melhor do que eu lembrava. Há uma mistura entre o narrador e o personagem narrador, muitas vezes, no que ele foi muito sagaz, porque dá espaço para que eu pense que, apesar de alguma boa intenção de Marlow, ele é europeu branco, ainda que não seja de uma elite de fato, ele não consegue se expressar sem passar incólume pelo asqueroso imaginário supremacista e irremediavelmente incapaz de respeitar o Outro em sua diferença. São momentos pontuais, mas que convergem com o personagem que é o vilão da história, o senhor Kurtz. No final das contas, [spoiler] Marlow se reconhece como discípulo de um Kurtz já podre de morto.

É chocante refletir, mais uma vez, a respeito da atmosfera de ignorância e manipulação, que estimulou o medo e a violência, mobilizando contingentes humanos a perseguir, sequestrar, torturar, estuprar e matar pessoas negras por mais de 300 anos.

A esfera pública europeia, ao mesmo tempo que sentia (finalmente) uma vergonha na cara (vou deixar a intenções para outra oportunidade), demorou uns bons anos para conseguir retirar o poder do rei Leopoldo, que havia sido autorizado pelas maiores nações do mundo décadas antes. E nem vamos entrar no caso das lutas coloniais do século XX (aí a dica que o comentador dá do filme). Quer dizer, não era o lombo deles e nem a terra deles e nem o braço deles sendo decepado. 

Apesar de tudo isso, eu ainda acho que valeu a leitura. Porque o Conrad, ele também era alguém no meio do caminho, ele não era bem um europeu inglês ou francês, por exemplo. Ele era polonês (que não era um estado ainda) e ucraniano (que eram perseguidos por uns 3 impérios), antes de se naturalizar inglês. Então ele bem pode ter desenvolvido um modo de percepção que é dentro e fora desse grupo violento.

Na edição passada eu recomendei um podcast que pode ajudar a trazer o contexto brasileiro da época, para o que o livro denuncia sobre o Congo do século XIX. 

Finalizo afirmando que “O horror! O horror!” nada mais é que a alma colonial expressando sua, mais uma vez, incapacidade de sentir empatia, de enxergar grupos com modos de vidas diferentes como humanos e ser capaz de fazer algum tipo de troca real, seja material, afetiva, saberes. Realmente pavorosos, um HORROR.

Ps. Eu nem falei do Kurtz direito, porque eu ainda preciso de tempo pra passar a raiva.

Pps. O conto ao final é muito bom.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Li no final de semana 📚

 

Nesse final de semana, eu terminei de ler dois livros que me deixaram reflexiva, com os olhos marejados, mas menos dolorida do que pensei que ficaria.

O primeiro deles é já bastante conhecido, há pelo menos um século, que é a "Carta ao pai do Kafka", que não é bem texto literário no sentido estrito mas é um texto que passa por várias classificações, sendo principalmente um texto biográfico. Nela lemos uma resposta de Kafka ao tratamento que o pai lhe dera toda a vida. Fala da relação dele com pai, de como mesmo aos 36 anos ele ainda não conseguiu elaborar suficientemente, nem superar, se é que era para isso acontecer. Um pai agressivo, um pai fruto do machismo da época, da nossa sociedade patriarcal, seja por conta da religião, por conta de condições econômicas, sociais, um tipo de masculinidade que só saberia ser violenta, bruta, quase sem demonstração de afeto pelos filhos. Ao mesmo tempo, se eu for considerar apenas a descrição da personalidade, era uma bastante expansiva, de modo a obrigar a todos o seu modo, esmagadora, como Kafka acusa.O que mais me chamou a atenção foi a extensão dessa carta nunca entregue e como ele pesou seus argumentos e a possível resposta do pai. É possivel sentir a angustia que essa presença impunha na vida mesmo do Kafka adulto. 

O segundo livro, "O rio que me corta por dentro", foi como fazer uma viagem pela história da minha família, há poucas gerações atrás, talvez da família de muitas pessoas de um certo Brasil. Um autor tão jovem, conseguiu escrever em 127 páginas uma história rica de acontecimentos, de afetos de verdade e delicadeza, mesmo diante de muitas violências acumuladas ao longo dos anos, ao longo dos nascimentos e das mortes não explicadas até que um dia se encontra uma explicação. Fala do amor de uma mãe, impedida por questões maiores do que ela mesma: mais uma vez o patriarcado, suas condições econômicos, não podendo ficar com filho dela, mas sempre voltando no final do ano, até que não volta mais... Fala de um amor entre dois amigos, que nasceu desde uma infância compartilhada no meio do mato, da natureza, da vida na simplicidade e que a mesma vida tratou de embaralhar tão tragicamente como uma peça de Shakespeare ou uma Fantasia Chinesa Danmei. Fala do amor de um aluno por sua professora que lhe ensinou as letras e uma outra camada de acesso aos próprios sentimentos, no meio de toda essa brutalidade... 

Falar de família parece uma fórmula fácil, para incitar sentimentos profundos no leitor e na leitora, não importa se esses sentimentos não são tão bons, porque todo mundo veio de algum lugar, mesmo que não seja familia de sangue, ou mesmo uma familia sequer, e mesmo uma família judia, na distante Europa do início do século XX ou de uma família do interior do nordeste nas década de 60 ou 90. Há em ambos uma enxurrada de emoções, uma necessidade desesperada de se sentir amado e de amar, de pertencer a um lugar, que pode ser um lugar-pessoa, que nos respeite. Às vezes isso não é possível...e às vezes é... 


O próximo livro que quero ler do autor é esse do link 




Carta ao Pai- Companhia das Letras 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Mudando a narrativa: sobre DeepSeek e IA. (tradução)

o logo da deepseek é uma baleia em azul


Por Karen Hao/@karenhao.bsky.social

27 de janeiro de 2025 às 11:12

(de um fio do bluesky)


Como alguém que cobriu o tema da Inteligência Artificial por 7 anos e os assuntos de tecnologia da China também, acho que a maior lição a ser tirada do DeepSeek são as enormes rachaduras que ele ilustra, diante do paradigma dominante atual do desenvolvimento de IA. Um longo tópico. 

Primeiro, o que é a DeepSeek? É uma empresa chinesa que foi capaz de produzir um modelo de IA de código aberto com aproximadamente 1/50 dos recursos dos modelos de última geração, mas ainda assim superou o 01 da OpenAI em vários benchmarks [indicador de desempenho]. 

Grande parte da cobertura [jornalística] tem se concentrado na competição tecnológica EUA-China. Isso ignora uma história maior: a DeepSeek demonstrou que escalar modelos de IA implacavelmente, um paradigma que a OpenAI introduziu e defende, não é a única, e nem de longe a melhor, maneira de desenvolver IA. 

Até agora, a OpenAI e seus peers scaling labs [grupos de influência da área] têm procurado convencer o público e os formuladores de políticas de que o escalonamento é a melhor maneira de atingir o chamado AGI (Inteligência Artificial Generativa).

Este sempre foi mais um argumento baseado em negócios do que em ciência.

Existem evidências empíricas de que o escalonamento de modelos de IA pode levar a um melhor desempenho. Para as empresas, essa abordagem se presta a ciclos de planejamento trimestrais previsíveis e oferece um caminho claro para vencer a concorrência.

O problema é que há uma miríade de enormes externalidades negativas ao adotar essa abordagem, e a menor delas é que você precisa continuar construindo enormes data centers, o que exige o consumo de quantidades extraordinárias de recursos. Muitos jornalistas escreveram extensivamente sobre essas externalidades [esse é um termo usado na economia e na ciência do clima, por exemplo].

Quando esses enormes data centers são instalados na cidade, eles consomem muitos recursos. Eles pegam água potável- sim, ÁGUA POTÁVEL, por conta da qualidade da água exigida para resfriar esse avanço tecnológico que ameaça aumentar o preço da água para as famílias...

Esse modelo estende a vida útil da indústria de carvão e petróleo, piora na qualidade do ar (segundo @evanhalper.bsky.social do @washingtonpost.com) - não apenas porque os combustíveis fósseis são a maneira mais rápida de aumentar o fornecimento de energia, mas porque as instalações têm que funcionar 24 horas por dia, 7 dias por semana, e isso não é possível apenas com energias renováveis intermitentes.

Depois, há os impactos globais. Mais carvão e gás significam mais emissões de carbono, acelerando nossa crise climática. Daí o motivo pelo qual o Google e a MSFT tiveram um salto de ~50% e 30% nas emissões desde 2019 e 2020, respectivamente (de @darakerr.bsky.social em @npr.org). 

OpenAl & co criaram um argumento engraçado sobre o porquê de aceitar essas externalidades: sim, infelizmente, há perdas no curto prazo, eles dizem, mas elas são necessárias para atingir a chamada AGI; a AGI então nos ajudará a resolver todos esses problemas! Então as perdas vale a pena.

Esta linha de pensamento tem sido tão eficaz em capturar a atenção dos poderosos, que o presidente Trump anunciou na semana passada o Projeto Stargate, um investimento privado de US$ 500 bilhões em data centers e outras infraestruturas de computação para a OpenAI.

Se a Stargate seguir adiante com US$ 500, será o maior gasto em infraestrutura da história e acelerará significativamente o ritmo já assustador do desenvolvimento de data center pós-ChatGPT. Por sua vez, isso acelerará significativamente as consequências mencionadas anteriormente.

Agora, além das externalidades negativas sobre o poder do povo, água, ar e clima global, temos outra: a cessão de mais e mais controle sobre a infraestrutura crítica de energia e água para o Vale do Silício. Escrevi sobre isso na semana passada em @theatlantic.com.

Mas o DeepSeek mostra, no mesmo momento do anúncio do Stargate, que a troca do OpenAI & co frame como totalmente necessária na verdade não o é

Espere um minuto. Você quer dizer que não precisamos cobrir a Terra com data centers e usinas de carvão e gás para talvez chegar a um futuro onde podemos acenar uma varinha mágica AGI para fazer todas as consequências disso irem embora? Sim. Essa é uma falsa troca. Vamos deixar essa ideia amadurecendo.

Como eu disse antes, escalar sempre foi mais sobre negócios do que ciência. Cientificamente, não há nenhuma lei da física que diga que os avanços de IA devem vir da escala em vez de abordagens que usam os mesmos ou menos recursos. Escalar é apenas uma fórmula incrivelmente fácil de seguir.

O DeepSeek agora também enfraquece esses casos de negócios que pretendem escalar na infraestrutura. O OpenAI tem queimado somas impressionantes de dinheiro para manter o paradigma de escalonamento e ainda precisa descobrir como equilibrar seus talões de cheque e acontece que nem precisava gastar tanto dinheiro. 

Então, não importa se você é uma empresa nos EUA, China ou outro lugar. O DeepSeek deve ser uma sinal para mudarmos a rota, com toda a força, em direção ao investimento em métodos muito mais eficientes de desenvolvimento de IA. Mesmo que você não se importe com os impactos na comunidade e no clima, é simplesmente um negócio muito melhor.

E se uma empresa não fizer essa alteração da rota, isso deve ser um grande sinal de alerta para sua capacidade de inovar. E não me refiro à inovação de produtos, mas à inovação em como desenvolver modelos de IA. A base de tudo.

Quando trabalhei em uma startup do Vale do Silício, costumávamos chamar um investimento do SoftBank de beijo da morte. O SoftBank injetava tanto dinheiro em startups que isso acabaria completamente com a necessidade dessas startups de inovar ou desenvolver um negócio financeiramente sustentável.

Eles poderiam mascarar toda a instabilidade em suas fundações com as hilariantes e imensas injeções de dinheiro por um bom tempo, mas eventualmente tudo ruiria. A necessidade é a mãe da inovação. Sem necessidade, o impulso existencial para inovar desaparece. 

Estamos basicamente vendo isso de novo. A OpenAI com Sam Altman é tão boa em levantar capital (inclusive agora do SoftBank), que está encobrindo as fraquezas técnicas e comerciais da empresa.

Veja este relatório do @ainowinstitute.bsky.social do @bcmerchant.bsky.social [todos os links ao final].

DeepSeek é o outro lado da mesma moeda: ela inovou por causa das restrições e não a despeito delas. E agora que ela pôs de cabeça para baixo as assunções do paradigma dominante da Inteligência Artificial, nós deveríamos rejeitar esse custo e procurar novas maneiras de desenvolver IA sem tantos danos.


quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Os favoritos de 2024!


Essa postagem é dedicada a Nayara do futuro, que pode querer lembrar que fez essas leituras. Fica também de sugestão, caso você se interesse. 😊

As leituras que mais me marcaram ao longo do ano de 2024! Para uma lista quase completa, é só acessar meu skoob nos lidos do ano passado.

Vamos lá!

💠Memórias de Adriano- Marguerite Yourcenar (março):

Aqui o trabalho excepcional de pesquisa e ambientação histórica e emocional da autora me conquistou quase que imediatamente. Antes, a história de Antinoo brevemente contada por um turista me chamou a atenção do fato de uma pessoa comum, talvez até um servo ou escravo, ter sido elevado à categoria de divindade pelo homem mais poderosos da sua época, tendo seu culto sobrevivido a este imperador. Apesar de ser a peça principal do livro, várias outras características da obra me cativaram. Comentei um pouco a respeito em uma das newsletter de 2024. 

Capa do livro Memórias de Adriano, com uma estátua do imperador

                                            


💠O Som do Rugido da Onça- Micheliny Verunschk (maio/junho):

Esse outro livro que, em poucas páginas, tenta imaginar a jornada e o destino de duas crianças indígenas separadas de seu povo séculos atrás e enviadas como "presente" à nobreza europeia. O fato terrível é apresentado do ponto de vista de uma das crianças e de sua própria cultura. Apesar de tudo, o final coincidiu com meu sentimento ao longo do livro.


A Micheliny ganhou o Jabuti por esse querido aí e ainda o prêmio Oceanos em 2024, pelo Caminhando com os Mortos.

💠Eu que nunca conheci os homens- Jacqueline Harpman (julho):

Eu que não gosto de distopias terminei lendo esta e gostando. É uma ficção científica que propõe alguns exercícios de imaginação sobre um tipo específico de fim do mundo, conduzido pela ótica de um pequeno grupo de mulheres.

Capa do livro: Eu que nunca conheci os homens


💠Admirável Novo Mundo- Bernardo Esteves (agosto/setembro):

Esse eu li simultaneamente ao "Um naturalista no antropoceno" e foi uma decisão feliz. No livro de Bernardo Esteves, conheci mais a respeito da América desde as várias chegadas dos seres humanos, bem antes que qualquer europeu. Os antepassados dos povos indígenas atuais, deixaram marcas e muitas pistas dos desafios que precisaram enfrentar para se adaptarem a esse continente que ficou isolado para humanos por tanto tempo, sendo que já era habitados por inúmeros seres vivos, inclusive a macrofauna famosa dos períodos glaciais. Uma das coisas mais belas que aprendi com essa leitura (e foram muitas), foi que o pequi e nossas palmeiras provavelmente eram semeadas por mamutes, em um processo que você encontra sendo mencionado nos dois livros. 

Capa do livro, editora Companhia das Letras



💠O profeta- Khalil Gibran (fevereiro):

Fiquei feliz de encontrar esse livro do Khalil Gilbran, meio por acaso e bem no início do ano. É o tipo de mensagem poético-profética que cabe bem o espírito dos inícios. Mas também caberia em momentos onde a gente pensa que nada está dando certo. Tenho para mim que é possível visualizar sua abordagem cristã vinda de uma matriz diferente das que estamos acostumadas aqui no Brasil. São tão bonitos paradoxos desafiados, pessoas que não são muito ligadas em religiões organizadas ou mesmo em qualquer uma.

capa de O Profeta, editora mantra


💠Wind And Truth- Brandon Sanderson (novembro/dezembro):

Esse aqui foi meu queridinho altamente esperado. Eu tirei dois anos para me atualizar de todos os livros da Cosmere (ou quase todos, eu nem tenho essa pretensão) para conseguir acompanhar o lançamento do último livro da primeira parte da série de fantasia que mais me entreteve com bastante dignidade. 

O livro é imenso, como 4 anteriores, mas valeu à pena mais uma vez a leitura: construção e expansão de mundo continua sendo a maior marcado autor, as personagens andaram nas jornadas que cabiam  cada uma (fiquemos satisfeitas ou não com isso), momentos engraçados, críticas coloniais disfarçadas, à escravidão e aos abusos de poder, crítica à destruição da natureza, crítica à falta de respeito com povos originários e à relação dos povos com o divino/natureza, crítica aos reis, rainhas e seres divinos quando não assume suas responsabilidades, defesa do amor, da amizade, do sacrifício pelo que é o certo, a preocupação com os traumas sofridos por quem vive de guerra ou em ambiente familiar tóxico, ou a dificuldade de se encaixar em qualquer cultura quando se é um imigrante etc. São muitos temas nessas mais de 1200 páginas (não sei como vai ficar em português).

E se você é fã de O Senhor dos Anéis: vale à pena. Nem que seja aos pouquinhos.

Capa de Wind and Truth, com Dalinar em destaque



💠A série Tudo Pelo Jogo- Nora Sakavic (julho):

Essas duas últimas leituras representam o meu momento: nunca prometi que sempre indicaria literatura certinha e adequada (já passei dessa fase, aliás, lá nos primeiros livros você encontrou uma parte daquela fase que ainda se manifesta...). 😂

Antes de mais nada, vamos aos avisos de gatilho: apesar de ser uma obra +18, e que é avisado lá, é importante saber que em cada um dos 4 livros da série lançados até agora, existem pelo menos 1 ou 2 cenas bastante fortes em termo de violência física, sexual e psicológica, além do uso de drogas lícitas e ilícitas. Afinal de contas, todos os personagens da história vieram de famílias problemáticas e uma boa parte foi abandonado às instituições que deveriam ter cuidado deles, o que não aconteceu. A histórica começa quando eles são recebidos por um técnico de um time, que usa o esporte como forma de recuperação social desses jovens adultos e o foco é o desenvolvimento da relação entre todos, enquanto buscam jogar no pior time de Exy.

É basicamente viciante.

Box com os três primeiros livros

💠Destaque dos quadrinhos: Semantic Error - J. Soori (maio):

Esse aqui eu peguei para ler pela fama: tem anime e uma novelinha curtinha. É romântico, mas não muito (eu ainda tenho um coração) mostra a amizade entre duas pessoas de personalidade completamente opostas: um desses clichês, mas que me divertiu principalmente porque um deles é completamente sem capacidade de trato com as pessoas.

Esse aqui é o livro. O manhwa está em inglês ou em português nas plataformas que você encontra por aí.


Então é isso! Eu poderia fazer mais algumas menções honrosas, mas se você chegou até aqui, bem que você poderia ir lá na página do skoob e conferir os 88 livros que consegui registrar no site. Faltaram alguns, mas poucos, está praticamente tudo lá. Aproveita e me adiciona!

Como meta para 2025 eu só queria ler mais fantasia chinesa. Mas isso vai depender das minhas autoras favoritas liberarem os próximos filhos.👀

Ah! E mais um ano com predominância de mulheres no saldo total. ^^


Feliz 2025, pessoas bonitas! 💗


Ps. Se quiser ajudar o blog ou minha newsletter é só usar os links que aparecem na postagem para adquirir qualquer coisa na amazon, não acrescenta em nada no valor da compra, mas pode vir a me ajudar. 


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